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Leopoldo Raimo Explosão e ruptura – Retrospectiva 1950-1980, 2025

Texto: Luiza Testa e Renata Rocco

Se Leopoldo Raimo via a si mesmo como um médico que pintava, seu legado na História da Arte parece sugerir a inversão dessa ordem: Raimo foi um pintor que também era médico. Na verdade, as duas carreiras eram árduas e foram profundamente entrelaçadas. Como ele mesmo definiu, a pintura era como a medicina: “os resultados só aparecem depois de muita luta e perseverança”¹. Não é exagero dizer que sua intensa rotina na medicina influenciou diretamente a maneira como produzia suas obras. Nos intervalos entre um paciente e outro, realizava estudos – muitas vezes utilizando receituários como suporte para seus esboços. Aos finais de semana, finalmente, transpunha para as telas aquilo que havia desenhado.

Outro elemento que certamente teve grande impacto em seu método e estilo foi o Ateliê Abstração, liderado pelo artista moldavo Samson Flexor – mentor que o guiou no início de suas incursões pelo abstracionismo geométrico, nos anos 1950. Raimo precisou romper com a rigidez da geometria mais estrita de Flexor para, no final da década, adentrar o universo do abstracionismo lírico ou tachismo. Passou então a incorporar novos elementos – areia e serragem – misturados à tinta, que explodiam em superfícies ricas em texturas, volumes e formas irregulares.

Nesta exposição, temos a rara oportunidade de contemplar obras de ambas as fases. Na primeira, destaca-se o rigor geométrico dos estudos realizados no Ateliê Abstração: peças feitas com régua e compasso, nas quais o artista, muitas vezes, recorre à proporção áurea para obter enquadramentos e resultados harmônicos. Outras composições da mesma fase apresentam enorme complexidade, com linhas de diferentes espessuras sobre gradações de tons que ora preenchem as formas, ora se ausentam. Em certos casos, surgem linhas soltas que remetem a notas e partituras musicais – é a fusão entre construção e lirismo.

Já nas obras tachistas, vemos criações mais soltas, com limites disformes, fendas e clarões. Batizadas de telúricas e cósmicas, são criações matéricas, de superfícies granuladas que vibram, como se o artista tentasse representar espaços terrestres ou o próprio universo, procurando dar concretude a elementos do mundo natural – visíveis ou invisíveis – , tal qual os sentimos e como habitam nossa imaginação. Para Raimo, a arte abstrata era a tendência que melhor responderia aos acontecimentos de sua época, justamente por sua capacidade de expressar o sentimento de um artista.

A exposição inclui ainda uma série de gravuras do artista – que fundou o Núcleo dos Gravadores de São Paulo (Nugrasp) – e obras de fases posteriores ao abstracionismo lírico, que permitem entrever um espírito inquieto e curioso, sempre em busca de uma nova estética.

Raimo participou de inúmeras bienais, integrou júris e foi tema de uma exposição individual na Pinacoteca, em 2008. Em Explosão e ruptura – Retrospectiva Leopoldo Raimo 1950-1980, graças à família Raimo, foi possível reunir dezenas de estudos e algumas telas que oferecem um mergulho na longa trajetória de um artista que, embora nunca tenha se dedicado exclusivamente às artes visuais, figura entre os grandes nomes da arte brasileira do século XX.

 

¹ Ivo Zanini. Medicina concreta, pintura abstrata: Leopoldo Raimo, Folha de São Paulo, 22 abr. 1964.