Etnogênese, termo aparentemente complicado, carrega em si seu próprio significado: etno, do grego ethnos, significa povo; gênese é origem ou nascimento. Portanto, Etnogênese refere-se à origem ou ao nascimento de um povo.
Aqui, cabem duas importantes ressalvas sobre o título da exposição: primeiramente, Marcelino Melo e outros contemporâneos tomam de volta um conceito usado nos círculos acadêmicos. Em segundo lugar, esta etnogênese da qual falamos aqui trata mais do reconhecimento – e não necessariamente do surgimento – de um ser-político periférico que já existe há muito tempo: aldeado, aquilombado, favelado. Há algumas décadas, essas populações vêm percebendo e fazendo perceber que a periferia pode ser central e o centro, supérfluo.
Marcelino ficou conhecido como Quebradinha, tamanha a popularidade de suas esculturas representando as construções da quebrada. Em Etnogênese – o que é, e o que pode ser, o artista expande a escala, extrapolando o território para discutir a origem e a fisicalidade das personagens que habitam essa arquitetura.
Esse ser do qual Marcelino fala, cuja pele tem cor definida (ou uma gama de cores) e pertence a uma determinada classe social, sempre criou uma profusão de literatura, artes visuais, música; descreveu a vida periférica com a clareza de Carolina Maria de Jesus; cunhou termos para dar conta de sua realidade, como Lélia González; e viu, como canta Leci Brandão, nascer novos líderes. Falando em nascimento, nos Estados Unidos, o movimento cultural que ocorreu no famoso reduto-símbolo da negritude de Nova York durante as primeiras décadas do século XX é conhecido como “Renascença do Harlem”.
As “Faces” que aparecem nas obras, tanto no MAC quanto no MACquinho, representam um indivíduo que é um e, ao mesmo tempo, muitos. A obra “Èmí, o sopro da vida” se baseia no mito iorubá da criação humana. O tijolo é a forma que molda esse “novo” ser. Sua formação físico-político-ideológica será definida por muitos elementos, entre os quais estão os 64 que compõem a obra “O que é, e o que pode ser”, que paira no centro do salão. Esta criatura que emerge/se reconhece em Etnogênese é feita de inúmeras variáveis, de forma que ninguém limitará o que ela pode ser.
Se o mainstream diz que “é pau, é pedra, é o fim do caminho”, do outro lado da ponte, o barro é o início da jornada, o tijolo que funda tudo. Esse elemento, visto como obstáculo pela elite econômica que oculta o tom marrom-alaranjado com camadas de massa e tinta, é também o barro do solo que percorrem aqueles que saem de seus territórios para chegar às metrópoles, caminho que trouxe Marcelino do município de Carneiros, em Alagoas, até São Paulo e, agora, a Niterói.
– Luiza Testa